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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Primeiro a realidade, depois a dramaturgia

Cá estou eu. Dia 29 de dezembro de 2017. Estou no interior, onde nasci, em Vassouras, na casa da minha infância. Trouxe poucas roupas e mais livros, cadernos e revistas. O ano de 2018 começa com três criações em processo. Uma pelo Teatro Inominável (http://bastardyellow.blogspot.com.br/), outra em parceria com a atriz Amanda Mirásci (MANSA) e outra - uma dramaturgia - para o Coletivo Ponto Zero com direção de Débora Lamm.

É sobre essa última que escrevo agora. Escrevo - para sempre firmar o propósito - para fazer com que as ideias dancem. Para possibilitar à reflexão o oxigênio necessário a sua transformação. Joguei um tarô com um amigo e perguntei sobre esse processo. Tinha receios de não conseguir me dedicar o suficiente. Ele me disse que seria um processo leve, que tinha tudo para ser. É estranho. Minha sensibilidade está compondo essa dramaturgia e eu nem sinto. Nunca antes foi assim.

Falo sobre como estou compondo essa dramaturgia. Fui convidado por esse Coletivo e pela Lamm para uma leitura que eles fizeram de "O Rinoceronte" de Eugène Ionesco. Dramaturgia memorável e bastante representante do dito "teatro do absurdo" cunhado pelo estudioso Martin Esslin. Havia lido tal dramaturgia fazia muitos anos, vi uma ou duas montagens de lá para cá. E lá estava eu, acompanhando uma leitura que não terminou.



Sobre o que esse Coletivo quer falar? Sobre os fascismos de hoje em dia? Sobre o embrutecimento da espécie humana, sobre o seu aspecto selvagem? Sobre o quê? Mais que tudo - sempre lanço essa pergunta - para quem e em qual onde? Em qual quando? Pensar uma nova criação, compô-la, antes de tudo é um convite a olhar para o mundo no qual se cria. Em que mundo estamos? Em que realidade - ainda - estamos?

2017. Quase 2018. Vejam o Brasil. O nível de estupidez é tão avassalador que aqueles que se julgam capazes de pensar nossa realidade podem até ficar constrangidos porque vivemos em meio a uma selvageria e a uma brutalidade do pensamento e da sensibilidade que qualquer tentativa de tramar diálogo é vista como doutrinação de esquerda. Que preguiça e, ao mesmo tempo, que desafio. Por quê? Porque não podemos parar de falar. Corpos seguem sendo censurados e dizimados, subjetividades que vinham conquistando seu espaço estão sendo assassinadas. Temos que falar, mas como? Para quem falamos?

Após aquela leitura na casa de Lamm, algo se fincou em mim ou em mim apareceu. Algo em torno da palavra "patologia". Pensei no pato que foi financiado pela Fiesp e pela Firjan. Mas essa analogia é pequena, quase uma piada simplória e carente de dobras. Seguindo a "patologia", através da etimologia da palavra, chego ao pathós. Retirado de um dicionário desses que temos disponível na internet:

Do grego pathós, sofrimento, e lógos, tratado, discurso, patologia significa o estudo das doenças.É o ramo da ciência que se ocupa das alterações sofridas pelo organismo em decorrência de doenças.

O que eu talvez esteja compondo diz respeito a um estudo sobre a doença que assola a sociedade brasileira. Doença provocada, que fique claro, doença intencionada, que fique bem claro. Afinal, já sabemos - e é preciso repetir - muitas de nossas doenças (psicológicas, de comportamento ou mesmo fisiológicas) são produzidas por aqueles que nos vendem seus remédios. Que fique claro (a despeito daqueles plantonistas que ouvem isso e dizem se tratar de uma teoria da conspiração).

O pathós brasileiro, o sofrimento (quase que) geral da nação, diz respeito justamente ao apagamento da compreensão do que gera nossas doenças. A burrice crônica, o conformismo e o conservadorismo que assola o teor das discussões, tudo isso vem de onde? Está aqui por qual motivo? Quem trouxe isso para cá?

Por isso leio jornais e revistas. Especificamente, gosto muito de ler a revista Le Monde Diplomatique Brasil quando começo uma nova criação. Leio a Le Monde pela qualidade de suas análises. Elas abrem um panorama, a princípio, invisibilizado. É como se eu adentrasse o mundo e compreendesse mais de suas perversas engrenagens. Destaco a edição de novembro de 2017 e três textos que desdobram a chamada da capa: Think tanks ultraliberais e a nova direita brasileira (por Camila Rocha), Nos modernos jardins da eloquência conservadora (por Pedro Carvalho Oliveira) e O conservadorismo moral como reinvenção da marca MBL (por Gabriel Barcelos).

Sim, escrevo essa nova dramaturgia sobre e a partir da dita "nova direita brasileira". E é só isso o que eu gostaria de postar aqui nesse blog. Aqui nada se conclui. Tudo sempre em movimento. Em breve, assim espero, mais reflexões serão postadas. Para quê? Para quem? Não importa. Aqui, nada disso importa.

sábado, 16 de dezembro de 2017

O teatro repensado pela performance

“O Narrador” e “Nada brilha sem o sentido da participação”, do Teatro Inominável (RJ), são apresentados neste sábado

Por Carime Elmor
16/12/2017 às 07h00

Qual é o limite entre a performance e uma peça? Me pergunto e questiono aos dois protagonistas de cada uma das ações, Diogo Liberano, dramaturgo e performer em “O narrador”, e Gunnar Borges, criador e performer em “Nada brilha sem o sentido da participação”. Ambas serão feitas em Juiz de Fora no mesmo dia, horário e local e para a mesma plateia, apenas um respiro que costura uma à outra.
“O narrador” é um texto escrito em três dias por Diogo, em seu apartamento no Rio de Janeiro. O gatilho precursor desta intenção veio da leitura do ensaio “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, de Walter Benjamin. Interessa a ele a busca por fazer experiência a partir da narração, do artista contador de histórias. Diogo, membro da Companhia Teatro Inominável, que começou em 2008 no Rio de Janeiro, se pergunta sobre essa falta de viver experiência no mundo de hoje, respaldado no que foi escrito por Benjamin e, mais recentemente, atualizado pelo educador e filósofo Jorge Larrosa Bondia. “Será que eu consigo fazer aquele que eu chamo de espectador ter uma experiência a partir do que eu faço?”
Para isso, ele se dispõe a fazer um jogo aberto, assumindo uma lacuna de direção, luz, cenário, figurino. Está ali apenas com seu corpo íntegro, sendo Diogo Liberano, desprovido da tentativa de ser outra coisa senão ele. “O que constitui para mim a performance em ‘O narrador’ é essa afirmação muito radical da minha presença enquanto o ser que eu sou e entendendo o meu trabalho artístico movido e criado unicamente com a energia da minha biografia, do meu corpo, das minhas experiências.”
A partir do momento em que as duas encenações são chamadas de performances, já se abre o diálogo sobre o que é teatro. “A performance, quando começa a ser feita dentro da companhia, não necessariamente fazendo peça, mas praticando, fazendo na rua, na cidade, ela acorda o nosso corpo. Traz de volta a potência da nossa subjetividade. E então, quando vamos para a sala de ensaio criar teatro, esse teatro está absolutamente afetado pelo nosso ponto de vista, pela nossa sensibilidade. E a criação teatral da nossa companhia jamais vai calar a nossa subjetividade, a própria criação vai ter que se refazer para dar conta dos nossos corpos, desejos, olhares sobre as coisas”, explica Diogo Liberano.

Ato presencial único

São apenas duas cadeiras, quase formando roda de conversa com quem está naquele momento assistindo e participando, esse é o formato das duas performances. Em “O narrador”, Diogo vale de suas experiências de vida e morte para contar histórias. Externar a morte de familiares e amigos e o que aprendeu com isso, porque, como ele mesmo afirma, um enterro abre todas as perguntas de novo, e é isso que ele quer se permitir a partir da performance, de viver o problema e não fugir das situações que nos atravessam a vida.
“Entre a história contada e escrita por mim, eu compartilho, por meio da leitura, arquivos da minha trajetória pessoal. Um poema que escrevi em dado momento, um e-mail que recebi, uma carta que chegou a mim, uma reflexão que fiz e postei em um blog. Eu compartilho documentos que nasceram naquela época, referentes à história que eu estou contando agora.” É como se Diogo fizesse um documentário autobiográfico utilizando imagens de arquivo – aqueles VHS ou Super8 resgatados, só que em forma de teatro, recuperando textos e os contando ao público.
“Ela é um ato presencial com aquelas pessoas que estiverem ali, ela é um acontecimento, ela não tem como ser reproduzida de outra forma a não ser ali, no momento em que estiver sendo feita”, fala Diogo sobre o caráter da performance de ser sempre único, um evento, um fenômeno daquele instante impossível de ser repetido.

Encontro entre poema e movimento

A performance de Gunnar Borges é uma “ação artística literária dançada”, enquanto um texto é lido ao fundo, sempre por um artista convidado, apostando justamente na diferença de cadência e tom de cada voz, uma coreografia é feita por Gunnar Borges. “Nada brilha sem o sentido da participação” pode ser entendida como uma analogia a uma composição musical, como se o poema “Conversa com pedra”, da polonesa Wislawa Szymborsca, fosse uma cifra sendo lida pelo corpo de Gunnar, ou como se o texto fosse apenas uma letra ganhando melodia pela ação corporal do ator. A intenção é que a dança capture o ritmo e encontre a métrica do texto. Para criar a coreografia, Gunnar Borges recebeu orientação da dançarina Renata Reinheimer, e, para a apresentação em Juiz de Fora, Jojo Rodrigues é a convidada para fazer a leitura do poema.
“A minha ideia inicial era a possibilidade de dançar as palavras, e não necessariamente uma música. Dançar as palavras seria a possibilidade de expandir os sentidos, uma vez que as palavras têm uma imagem, me causam um afeto, e meu corpo responde a isso com movimento. A leitura do poema seria feita a partir da musicalidade da minha partitura corporal, como se fosse a própria música que eu estivesse dançando. No momento em que a palavra ecoa no espaço, meu corpo responde”, afirma Gunnar sobre sua intenção ao criar a performance.
O poema de Wislawa Szymborsca, explica Gunnar, trata-se de um diálogo entre uma pessoa e uma pedra, enquanto este ser humano quer entrar na pedra, ela recusa, dizendo que aquela pessoa não poderia entrar porque não tem o sentido da participação. “Para mim, a pedra simboliza a tentativa de adentrar, seja em um afeto, um pensamento ou em uma pessoa, mas aquele espaço não é convidativo ou possível, são aquelas questões que são ontológicas, não têm resposta necessariamente. Enquanto o poema é lido, eu faço a pedra e a pessoa dialogando com ela.” É sobre um alguém que quer explorar o desconhecido, mas chega a um limite em que nada mais será revelado.
A leitura do poema e a coreografia são dois acontecimentos autônomos que acontecem simultaneamente. “Nada Brilha sem o sentido da participação” é um encontro curto, Gunnar o considera uma abertura eloquente para “O narrador”, os dois partem de um material escrito, conceitual e filosófico, do Walter Benjamin e da Wislawa Szymborsca, e constroem uma ação, um movimento performativo. Teatro Inominável já apresentou em Juiz de Fora “Sinfonia sonho”, “Vazio é o que não falta, Miranda” e “Não dois”.
“Nada brilha sem o sentido da participação” + “O Narrador”
16(RJ). Sábado, 16, às 20h, no (Avenida Getúlio Vargas 200). 3690-7051. Oficina de Criação-Produção. Com Diogo Liberano. Domingo (17), às 9h, no Sesc (Av. Barão do Rio Branco 3.090 – Centro)

Matéria publicada originalmente impressa no jornal Tribuna de Minas, de Juiz de Fora/MG, em 16 de dezembro de 2017. Acesse: http://tribunademinas.com.br/noticias/cultura/16-12-2017/o-teatro-repensado-pela-performance.html

sábado, 30 de setembro de 2017

Como começar uma nova criação teatral?

Como centrar o corpo e o espírito para que a criação indique o seu caminho?
De fato, um processo de criação artística nos convida também a um processo de recriação de si mesmo. Sempre de novo, quase sempre do zero, mas zero aqui não é vazio, nada negativo, zero aqui é disponibilidade integral. Começar sempre do zero é começar de novo e novamente disponível ao improvável que virá. Ato de coragem. Ato de ir acontecendo com o que for nos assaltando e criando cabana em nós.
Aqui estou eu, em Juiz de Fora/MG, cidade onde vivi os anos mais fundantes da minha existência: anos da adolescência. Onde fiz amigos que até hoje me povoam, perto ou longe, vivos ou já falecidos. Aqui estou eu. Cheguei um dia antes do primeiro ensaio e acordei cedo para andar por essas ruas. Para reconhecer e estranhar o já conhecido.
Entrei numa galeria só para ver - na vitrine de uma lanchonete que não lembrava o nome - um cigarrete. Sabem o que é? Aquele enroladinho de presunto e queijo frito e crocante. Era o meu lanche de todos os dias na escola. Nunca mais encontrei ele que não fosse aqui em Juiz de Fora. Daí vi o cigarrete e sorri para ele, parado no meio da galeria. Algumas pessoas me olharam. Eu olhei para o céu e vi esse teto da foto. Nunca o tinha visto. Fiquei surpreso.


Quanta coisa ainda tem para nascer naquilo tudo que já julgamos conhecer, não?
Senti falta das livrarias que conheci aqui e que me despertaram o desejo de ler, estudar e criar. Cruzando ruas, não encontrei ninguém que conheço, mas entrevi pessoas que - juro - são aquelas que faz muitos anos já devo ter trocado uma ou outra palavra. Que beleza o tempo, a distância do espaço e também do pensamento.
Como começar uma criação? Decidi começar andando pela cidade. Andei sem GPS, me perdendo e me reencontrando. Os afetos hoje considerados memória voltaram a me percorrer e a preencher. Encontrei uma livraria nova. Nela, no balcão principal, para a minha surpresa, um livro que acabei de publicar esse ano. Que estranho, pensei. Quando, faz cerca de 15 anos, o espaço físico dessa nova livraria era uma farmácia ou estacionamento (não me recordo), eu andava de skate pelas ruas de Juiz de Fora e engatinhava na compreensão de que o meu destino aqui nesse mundo mundo vasto mundo era mesmo o de trabalhar com arte.
Como começar (o que já está acontecendo)?
Uma pausa.
Um olhar demorado e entregue ao calor do sol.
Os prédios, antes tão grandes e impossíveis, traduzem em mim a ousadia que foi ter escolhido ser quem eu sou.
Um prazer desmedido me arrepia. Uma alegria exultante e graciosa me alimenta. Aqui estou eu, como nunca antes, misturando vida e arte, misturando o que já foi com tudo o que ainda pode vir a ser.
Eu amo o meu trabalho.
E por isso agradeço. Obrigado Zezinho ManciniAngelica JoppertThiago AndradeCarol TagliatiRodrigo Coelho e Vívian Hauck pelo encontro que, de fato, começa agora.
Em novembro tem peça estreando em Juiz de Fora.